terça-feira, julho 26, 2011

Supe...nova... semi e coiso e tal



A quem me ensinou a gostar de poesia: mãe, pai... Muito obrigada!

Para vós, um clássico mas, dos melhores!


TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos

10 comentários:

AC disse...

Pessimismo e solidão q.b., mas agora e sempre um enorme poema...

Beijo :)

Me Hate disse...

Adoro... é dos poemas que cheguei a saber de cor... foi durante uns anitos o meu favorito... depois fui lendo mais e mais e mais e deixei de ter favoritos... acabei por amar a poesia! ;)

Pedrasnuas disse...

Não acredito nele...F.P. sabia que a tabuleta iria desaparecer mas o seus versos não...e quando diz "eu não sou nada/ nunca serei nada" Outra mentira!!! Ele sabia dos grandes escritores e poetas imortais...sabia... e como sabia ...e soube construir a sua própria imortalidade!!!

Um poema fabuloso!!!

Gostei da música...comecei a escrever aos 12 anos...e nunca mais parei...e quem me ensinou? eu descobri sozinha...e amo muito mais a poesia dos outros do que a minha.

Beijo

Me Hate disse...

Neste sentido.. e apenas (por enquanto) neste sentido, permita-me discordar... se o Fernando era tão "esquizofrénico" como eu, acho, que tinha mesmo em si, a noção de que não era nada...

Como eu, julgava que era apenas mais um grão numa praia de uma imensidão eterna.

Um poema de facto, fabuloso que redescobri como ua pessoa igualmente extraordinária mas, que sofria de também uma espécie de "esquizofrenia" que tornava a habitação por sua beira completamente insuportável...

Escrevo desde que me lembro de mim... mas como quem muito lê, sempre acha que escreve mal, destruo quase todos os dias mais de 10/15 páginas... Vá lá, coloco todo na reciclagem o que, bem vistas as coisas, já não é ua perda total.

Quanto à poesia partilho opinião e claro, dimensão... Contudo e porque hoje o meu espirito se adivinha mais insolente, permita-me escrever-lhe alguma da muita admiração que enho por aquilo que escreve.

Beijo

Pedrasnuas disse...

Tenho aqui um volume para ler sobre F.P. fotobiografia sec xx de Joaquim Vieira...em que numa das páginas diz "Máscaras do Adolescente- Pessoa começou a cultivar um estilo e uma atitude, uma ideia de escritor, ou dos escritores que queria ser. Preocupou-se com a assinatura- a sua e a dos diversos pseudónimos ou pré-heterónimos" - Isso parece-me qualquer coisa...

Você pode julgar-se um grão de areia, eu posso julgar-me um grão de areia ...mas há gente que o diz apenas por falsa modéstia...o que não é o meu caso...pq não frequento meios nenhuns, ninguém me conhece...ninguém sabe quem sou...Subtraindo o mundo virtual não fica nada...também isso não importa...
Considero-me alguém que vai experimentando...ensaiando aqui e ali...não tenho pretensões nem ilusões...uma total amadora com perfeita noção dos seus limites...
Destruir o que escreve é um acto de raiva...contra si mesma...
penso que li mal...sente admiração por aquilo que escrevo?! Desde quando?!
(Permita-me dizer que a sua escrita tem um estilo...muito próprio que admiro imenso)
Acreditar ou não...fica ao seu critério.

Beijo

Me Hate disse...

Dou-me como "vencida" quanto ao nosso Pessoa... pensou em tudo e com pormenor o que, sinceramente não sabia... durante muito tempo, e algus dos seus biografos também acreditam nisso, julguei que fosse apenas a expressão da sua doença mental afinal...

Quanto ao que destruo, sendo eu da área de psicologia acho interessante essa projecção que fez de mim... e se calhar até tem razão... ainda que ache que o rasgar esteja mais relacionado com a minha falta de fé em mim... contudo, os meus dilemas e discussões interiores são constantes e há portanto, alturas em que a raiva se apodera de mim, como o amor e todos os outros sentimentos que por "aqui" passam.

Quanto ao resto... gosto do que escreve, acredite (O tinteiro tombou…a tinta espalhou-se e bebeu o poema
no seu lugar apenas uma mancha escura…
Procurei-me no papel…nada...
Nada sobre mim…) não acho é que na maioria das vezes tenha nada de novo a acrescentar e assim, mais vale estar calada.

Quanto ao que diz acerca da minha escrita, acredito. acho é que a qualidade nunca é a suficiente. Enfim... pancadas!

Beijo

Pedrasnuas disse...

Lá está uma escrita deveras bem estruturada...um português fluente e com estilo muito próprio... que faz de si alguém mais do que os outros...Aprecio essa forma que tem de se expressar...directa,objectiva, por vezes fria e distante mas não menos bonita...
Se o nada fosse mesmo coisa nenhuma...Gosto do que diz ...vá falando...

Concordo, a qualidade aprimora-se...não é estanque...:)

Me Hate disse...

Obrigada... num dia que adivinha já difícil este foi um raio de sol no meio de tanta chuva... ;)

Pedrasnuas disse...

Hummm...gostei de saber isso...;)

Me Hate disse...

Foi mesmo verdade... aliás, desde lá para cá os dias têm sido mais e mais dificeis... Obrigada. ;)