segunda-feira, setembro 13, 2010

Musica e Poesia...



Memória



I

Na cristalina, líquida presença,

crescente lua no abismo enquanto

o mar se cala, desconheço a margem

onde me espera no desejo

esguio do poente a deusa branca...

À ínfima visão dum lírio encosto

o meu soluço! O espaço é grande...

Não invoco o lugar mas a verdade

surge aquém da espera...

Gaivotas sussurrantes, deixo a música

morrer, pegadas frescas, desperdícios

quentes na relva da minha alma...



II

Quando se oculta julgando a noite

indefesa enorme, a fugidia

estrela me ilumina e desce!

Vem até mim, quebrada a natural

cadência do seu mundo, e cresce... cresce...

Tentáculos de luz me envolvem. Comovido,

aperto em minhas mãos o elanguescente

ardor do seu chegar...



III

Reconquisto agora o teu rosto, um horizonte,

silêncio de grito suspenso, labirinto,

mais desfeito

no hálito das nuvens...

Me surges tão sem ti

que envolve o dia a espessura deste longe...

E afogo assim na íntima, na única

beleza do teu rasto,

o meu soluço de água...



António Salvado

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