segunda-feira, julho 23, 2007

Ódio musical passado... Madredeus - Vem!

O Amor Em Visita

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite. Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele – imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
– Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra – invento para ti a música, a loucura
e o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira – para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
– Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
– Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
– o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
– E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
– No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
– Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
– aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
– no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

H. Hélder

19 comentários:

PCS disse...

"A verdadeira paz instala-se então de cima para baixo, e à volta. Encontro-me no mundo. A esquizofrenia fica longe, na cultura. É tudo quanto tenho para dizer." photomaton & vox, herberto helder
;)

Me Hate disse...

Certamente sendo nós algo esquizofrénicos, deveremos ser os únicos hoje, a ler por completo este poema... e depois a conseguirmos dissertar acerca do assunto e... a ir um pouco mais além...

Lá está, de linear P. não tens mesmo nada! ;)

MAF disse...

� me hatezinha.....
� bonito....mas � mtoooooo grrraaaaannnndddeeeeeeeeeeee

Me Hate disse...

Sim, é um facto, mas o poema é tão belo tem por detrás dele um significado tão maior que... julgo... o extensão é apenas um pormenor...

Confesso que estou faz tempo para o colocar e não o tenho feito exactamente pela extensão... Hoje dissiparam-se as duvidas e fiz acção terapeutica: que se lixe se não lêem! Que se lixe se é grande! EU quero... eu coloco... vocês deixem de ser preguiçosos, leiam, reflictam, comentem ou não...

Maf, tu és capaz eu sei, estás só armada em "esquizitoita"!!!! ;)

Thunderlady disse...

Me Hate... gigantesco! vaiter qu ficar para outra altura.

Me Hate disse...

Ora ora... de ti é que não esperava que a Montanha de afasta-se Moisés... O mundo ao contrário!!!!

Me Hate disse...

Em forma de especie de Magazine:

1- Estás mais envolvido com o sarcasmo ou com a gentileza na tua escrita na internet?
Uiiiiiiiiiiiiii... tenho de dizer a verdade???? I guess so... bom... sarcasmo com muitas pontinhas de ironia.

2- Acreditas que os teus ideais políticos te definem?
Estaria mal se assim fosse!!!!

3-Qual é o elemento essencial de uma relação?
Confiança/companheirismo.

4-É difícil levantares-te de manhã?
NOP!

5-Qual a última coisa mais bonita que viste?
Não posso mencionar o nome... mas creio que a pessoa em questão sabe! Acho... hum...

6-Por que sou tão medricas quando vou ao médico?
Sou muito cool! Com psicoterapia, com operações, com médicos e consultas em geral e com dentistas em particular!

7- Se pudesses conhecer alguém que não conheces quem seria?
Já conheço tanta gente... e faladora como sou, o mais certo é vir a conhecer ainda mais, como tal, deixa lá estar... espera, só se for a Monica Belluci... ou o Gerard Depardieu... ou a Catherine Deneuve... ou... Kidding! Quero lá saber!

8- É fácil gostar-se de ti?
Demasiado... algumas pessoas acham até que é "um exagero... eh pá não compreendo!!!"

Oh já acabou!!! ;)

cat disse...

li até ao fim e soube bem. nao conhecia e fez sentido para mim e estes ultimos dias que passei, de uma maneira avassaladora. =)merci

Me Hate disse...

Pas de tout madame.
Par ici on trove toujors de personnes avec l´âme.

E depois, encontram-se por cá também, pessoas com paciência e sapiência suficientes para ler até ao fim e tirarem daí as suas ilações pessoais...

Nos dias que têm passado de facto, também muitas das frases que Herberto ali escreve são uma constante realidade... Enfm...

MAF disse...

me hatezinha....
andas a coçar a barriga na andas???

Me Hate disse...

Nem por isso... ainda que o conceito agora por ti enunciado me tenha dado uma vontade extrema, não de coçar o que seja do corpo mas, de voltar para a cama... isto de se andar a dormir 2/3 horas por noite é chato... vê lá tu o quanto eu ando a... como dizias mesmo???? "Coçar a barriga"?????

Provocadora!!!!!!

PCS disse...

Posso responder ao magazine:)
Isto deu-me muita comichão!
Vou comichar um bocado:)

O Carmo e a Trindade disse...

Gosto de si M.H. e da sua sensibilidade que tenta esconder.

E gosto deste rapaz Linear, que de facto, como diz e bem, de linear não tem nada.

Me Hate disse...

Pcs: Comicha prá´í à vontadix mix! Não quero que te falte nada!!!!

Me Hate disse...

Oh Carmo, olhe que não, olhe que não!

Eu certamente não sou boa pessoa (nem me interessa sê-lo) e o Pcs, não é mesmo linear mas creio que também nunca foi ambição sua...

PCS disse...

"Rapazola que nasce torto jamais se delineia”....ai que ainda me cai o Carmo e a Trindade em cima!!!
Agora a piada fraca: (fracamente fraca)
Já provaram o queijo Linear? ;)

Me Hate disse...

Não esse de facto, não mas... já provei o Limiar... da realidade, um queijito assim pró forte de sabor e intenso mas, come-se bem... não se pode é comer muito senão faz indigestão!!!! ;)

Me Hate disse...

Quanto ao Carmo e à Trindade cairem... julguei que nos nossos casos o terramoto já tinha passado por nossas vidas... Espera lá, tu não me digas que ainda vamos ter de levar com MAIS escombros na tola?!?!

somebody disse...

酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店經紀,
酒店打工經紀,
制服酒店工作,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
專業酒店經紀,
合法酒店經紀,
酒店暑假打工,
酒店寒假打工,
酒店經紀人,
菲梵酒店經紀,
酒店經紀,
禮服酒店上班,
酒店小姐兼職,
便服酒店工作,
酒店打工經紀,
制服酒店經紀,
酒店經紀,

,